A Liga Herminista, mais tarde Grémio, foi uma referência na região da Serra da Estrela, como podemos ler neste livro publicado em 1957.
Se há instituições na nossa terra que merecem ser divulgadas, a Liga Herminista é sem dúvida uma delas.
Através dos livros que nos deixou, Francisco Mendes Póvoas retrata para os seus leitores a obra desta colectividade que, no longínquo ano de 1924 foi fundada por torroselenses que, muito amaram e contribuíram para o progresso e desenvolvimento desta linda aldeia. A Liga, mais tarde Grémio, foi uma referência na região da Serra da Estrela, como podemos ler neste livro publicado em 1957.
O Documentário da Serra
Meia tarde chegada, o Rodrigues não ocultou a ansiedade de gozar o panorama do Mir’Alva; desde a primeira vez que ali estivera, não mais se lhe apagara a impressão daquela aliciante mansão de turismo. Todavia, a sequência do itinerário indicava a visita pela esquerda.Em frente do edifício da Liga Herminista Estrela d’Alva, num humorismo que bastantes vezes lhe saltava à face, levou a mão ao chapéu e exclamou: - ADomus Regionalis! Alvará aprovado, amor do torrão natal a par do desenvolvimento do Herminismo! Conjugação de esforços no bairro, hino à Serra! Obra que, como diz Luís Ferreira, jornalista alfacinha, n’ “A Comarca de Arganil”, “correu o país de norte a sul em inteligente propaganda a ocupar largo espaço na imprensa” e nela encontramos: pela acção bairrista desde 1924, a reorganização da antiga Filarmónica Torroselense, com abertura de subscrições para aquisição de novo fardamento e instrumental; distribuição de pão de trigo e amêndoas a crianças pobres; inauguração de uma pequena leitura na sede, conferências educativas, criação de uma aula nocturna para adultos, que proporcionou extinção de analfabetos nos mancebos que se apresentavam às inspecções militares e pela qual obteve no “ Diário do Governo” um louvor oficial; distribuição de esmolas e retalhos pelo Natal; confecção do estandarte com motivos regionais; concessão de subsídios; construção do Campo de Desportos na Cruz Alta e organização com equipa do primeiro desafio de futebol em Torroselo; estudo das necessidades locais; concessão de prémios escolares a alunos da Escola Primária Oficial; primeiro estudo da planta da Cruz Alta, colocação de lápides em azulejo à estrada nacional e representação sobre a ponte do rio Cobral; comparticipação nas obras do lavadoiro público e representação sobre o saneamento das fontes públicas; representação sobre a necessidade de uma nova fonte no Bairro da Cruz Alta; comparticipação nas despesas de recepção às autoridades pela inauguração da estação telefono-postal e aposição de placas de nomenclatura de ruas. Proposta de iniciativa de electrificação de Torroselo.

Pela acção regional: - Publicação da “Estrela d’Alva”, representação ao Parlamento sobre os Rochedos Fisionómicos da Serra; distribuição de livros e preparos escolares na Escola Primária Oficial de Várzea de Meruge e na de Meruge; propaganda desportiva na região; concessão de prémios escolares para as escolas de Folhadosa, Sandomil e Seia, pelo que foi atribuído um louvor da Inspecção Escolar da Guarda; representação sobre as estradas para Sandomil e Lagares da Beira; colaboração no lançamento da primeira pedra aos mortos da Grande Guerra, em Seia, e no sarau a favor das vítimas do terramoto do Faial; propaganda a favor de uma fonte em Várzea de Cima; lançamento de subscrições e aplicação de donativos para compra de material cirúrgico para o Hospital do Concelho de Seia; organização da Grande Reunião das Penhas Douradas em 25 de Agosto de 1929, para concretização das aspirações regionais...
- Paremos aí, benquisto orador; chegamos ao acto de maior projecção herminista até à data levado a efeito e importa verificar directamente o êxito dele. Sigamos então nosso caminho...
A Cruz Alta contava naquela altura alguns melhoramentos que o Rodrigues não conhecia: a preconizada fonte de abastecimento público, duas avenidas auspiciosamente demarcadas e a coroa da glória da freguesia, o Cruzeiro erguido em 22 de Setembro de 1940.
A meio da acrópole torroselense, ao fim de uma vereda escorrida sobre pedreiras dispersas e veios de seixo entremeados de mato, trabalhava um homem idoso servindo-se do enxadão.
(...) – Ó tio João! – lhe dissemos – Olhe que está a dar em pedra dura!...
Não houve hesitação na resposta: - Se pedra dura é, pão mole há-de dar...
Excepcionalmente o Rodrigues foi para o estrangeirismo:
- Tableau! Adão no Paraíso não diria melhor... E seguimos para o Cruzeiro.
A tarde caía com serenidade. Uma claridade reluzente envolvia o capitel e fez sobressair a data da carta do prior de Santa Cruz: 1196.
- Populus Torroselensis, velhinho de sete séculos e meio!
- Exclamou o nosso hóspede enleando a coluna cilíndrica com o braço esquerdo e distendendo a vista para o povoado:
- Ergueste este Cruzeiro Propia Pecunia Posuite (PPP).
Eu te saúdo, pelo espírito de remota independência que assinala este Padrão! E dirigiu-se a passos largos para o lado do Mir’Alva.
continua...
Por: A. Madeira
Fonte: A Serra da Estrela e o Herminismo em Pleno Desenvolvimento, de Francisco Mendes Póvoas, Torroselo, Janeiro de 1957